Semana da Tontura

Sinopse de Fatos Relevantes (2020)

VERTIGEM POSICIONAL PAROXÍSTICA BENIGNA (VPPB)

SINOPSE DE FATOS RELEVANTES

Prof. Dr. Maurício Malavasi Ganança

Professor Titular de Otorrinolaringologia da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina

  • Vertigem, tontura, instabilidade corporal e quedas são sintomas muito comuns na população mundial. Várias são as possíveis causas. Os distúrbios do labirinto constituem os fatores causais mais frequentes.
  • O tipo preponderante de vertigem é a vertigem posicional, provocada à mudança de posição da cabeça, tipicamente ao incliná-la para trás, para frente, ao virar na cama para a direita ou para a esquerda, ao sentar ou levantar.
  • A vertigem posicional pode ser ocasionada por acometimento da orelha interna, nervo vestibular ou do sistema nervoso central.
  • A doença que mais frequentemente ocasiona episódios de vertigem posicional é a VPPB. A recorrência dos surtos de episódios da VPPB é muito comum, por uma ou mais vezes, com intervalo curto (algumas semanas ou poucos meses) ou longo (muitos meses ou mesmo vários anos). Alguns episódios podem eventualmente ter resolução espontânea.
  • A VPPB é predominantemente encontrada em pacientes que têm ou tiveram enxaqueca, que relatam somente historia familiar migranosa ou apenas referem alguns traços isolados comuns em migranosos, como cinetose (caracterizada por mal estar e enjoo em veículos em movimento) ou mal de desembarque (representado por tontura e instabilidade postural persistente ao andar após viagem prolongada em meios de transporte).
  • A VPPB pode estar associada a outras doenças labirínticas, principalmente com a doença de Menière, caracterizada por episódios repetitivos de vertigem aguda e sintomas auditivos (zumbido, pressão e perda auditiva usualmente em um dos ouvidos), que ocorrem ou se agravam na crise vertiginosa.
  • A vertigem posicional da VPPB surge em episódios fugazes, por segundos ou minutos. Náusea, vômito, sudorese, palidez e palpitações podem estar presentes durante o evento posicional.
  • De acordo com a intensidade e frequência dos sintomas, a VPPB pode ser considerada leve (quando não interfere e não impede as atividades cotidianas), moderada (quando interfere) ou severa (quando interfere e impede).
  • VPPB persistente e incapacitante é rara.
  • A VPPB pode ser originada por otólitos que se destacam do utrículo e se alojam em um ou mais canais semicirculares labirínticos ou por alteração da densidade da endolinfa ou da cúpula da crista ampular do ducto labiríntico implicado (cúpula leve / cúpula pesada).
  • O canal posterior é habitualmente muito mais acometido do que o canal lateral, sendo raro o envolvimento do canal anterior.
  • O canal comprometido na VPPB pode ser identificado por testes diagnósticos baseados em movimentações cefálicas: prova de Dix-Hallpike para o canal posterior, provas de Pagnini-McClure e de flexão-extensão cefálica para o canal lateral e prova de hiperextensão cefálica para o canal anterior.
  • Na avaliação diagnóstica da VPPB pode surgir movimentação peculiar dos olhos (nistagmo posicional), cuja direção e duração informam sobre o canal acometido e o tipo de comprometimento (canalitíase, em que os cristais circulam no ducto canalicular ou cupulolitíase, em que os cristais aderem à cúpula).
  • O nistagmo posicional pode ser vertical para cima e torcional (apontando o acometimento do canal posterior), horizontal (sinalizando o acometimento do canal lateral) ou vertical para baixo e torcional (assinalando o acometimento do canal anterior).
  • Nistagmo posicional com duração menor do que um minuto denota a canalitíase e maior do que um minuto evidencia a cupulolitíase. A distinção entre estas duas condições pode influir no modo de realização de algumas manobras terapêuticas.
  • O tratamento específico do canal acometido deve ser feito pelo médico ou sob sua supervisão, por meio de manobras físicas de reposicionamento dos otólitos: de Epley e/ou de Semont, para o canal posterior; de Gufoni, de Lempert ou de Zuma e Maia, para o canal lateral; e de Yacovino ou de Epley / Semont reversos, para o canal anterior.
  • As manobras terapêuticas visam enviar os cristais de volta para o utrículo, onde serão reabsorvidos e eliminados. Cada manobra de reposicionamento pode ser realizada uma ou mais vezes na mesma sessão e também em eventuais sessões subsequentes, com intervalo de 3 a 7 dias.
  • A realização de automanobras pelo paciente em sua casa não é recomendável, a não ser em circunstâncias excepcionais, a critério do médico, após treinamento intensivo e vigilância rigorosa da evolução do paciente.
  • Quando o substrato fisiopatológico da VPPB não é representado pelos otólitos, mas sim por provável alteração da densidade endolinfática ou da cúpula da crista ampular (cúpula leve ou cúpula pesada), as manobras de reposicionamento costumam ser ineficazes.
  • Nos casos não responsivos às manobras de reposicionamento, uma terapia conservadora é aconselhável, por meio de combinação de recursos tais como agitação cefálica, vibração na mastoide, mudança de hábitos e estilo de vida, reabilitação vestibular, fisioterapia de equilíbrio corporal, controle de comorbidades, medicação antivertiginosa, tratamento profilático de enxaqueca (quando esta estiver associada à VPPB) e dormir com a cabeça e tronco inclinados 45° para frente durante dias ou semanas.
  • Em cada recorrência da VPPB o paciente deve ser reavaliado. O canal e/ou labirinto acometidos podem ser diferentes dos observados no evento anterior.
  • O prognóstico da VPPB com o tratamento adequado é costumeiramente excelente na grande maioria dos casos.