
Durante a Copa do Mundo de 2026, um acessório chamou a atenção além das chuteiras e uniformes: as máscaras faciais de proteção utilizadas por alguns jogadores que sofreram fraturas na face. Mais do que um elemento visual, esses dispositivos desempenham um papel importante na recuperação de atletas e também de pessoas que precisam retomar suas atividades após um trauma facial.
Nesta edição do torneio, jogadores como Djed Spence, da Inglaterra, e Stefan Posch, da Áustria, entraram em campo utilizando máscaras personalizadas para proteger a região lesionada após fraturas na mandíbula.
Segundo a otorrinolaringologista e cirurgiã crânio-maxilo-facial Dra. Maria Victória Miranda (CRM-SP 191266), membro da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), o equipamento é indicado principalmente para pacientes que sofreram fraturas nos ossos da face, como nariz, zigoma (maçã do rosto), órbita ou mandíbula. “A máscara facial funciona como uma barreira de proteção contra novos impactos durante o período de consolidação óssea, reduzindo o risco de agravamento da lesão e possibilitando, em alguns casos, o retorno mais precoce às atividades esportivas, desde que haja liberação da equipe médica”, explica.
As máscaras são confeccionadas de forma personalizada, a partir de moldes ou escaneamento tridimensional do rosto do paciente. Geralmente, são produzidas com materiais leves e resistentes, como fibra de carbono ou polímeros especiais, capazes de distribuir melhor a força de um eventual impacto e diminuir o risco de novas fraturas.
Quem pode utilizar?
Embora sejam frequentemente associadas ao esporte de alto rendimento, as máscaras faciais também podem beneficiar pessoas de diferentes idades, incluindo crianças, que estejam em recuperação de uma lesão facial e precisem retornar às atividades físicas, profissionais ou escolares.
Dra. Maria Victória destaca, porém, que a indicação é individualizada e depende de fatores como o tipo da fratura, o estágio de cicatrização e a avaliação do especialista. Além disso, o equipamento não substitui o tratamento nem elimina totalmente os riscos. “Mesmo oferecendo proteção adicional, a máscara não torna a região lesionada invulnerável. Em alguns casos, o paciente ainda não apresenta condições de retornar às atividades, mesmo utilizando o dispositivo. Por isso, o acompanhamento médico continua sendo indispensável durante todo o processo de recuperação”, ressalta.
Tempo de recuperação
De acordo com a especialista, a consolidação inicial das fraturas faciais ocorre, em geral, em cerca de 30 dias. Entretanto, durante os primeiros 90 dias após o trauma, o osso ainda está em fase de remodelação, apresentando menor resistência mecânica e maior suscetibilidade a novas lesões.
Após esse período, quando a consolidação ocorre de forma adequada e não há complicações, a resistência óssea tende a se aproximar daquela de um osso que não sofreu trauma.
Uso além do futebol
As máscaras de proteção facial também são utilizadas em modalidades como basquete, handebol, rúgbi e artes marciais. Além disso, podem ser indicadas para pessoas que sofreram acidentes ou passaram por cirurgias na face e necessitam retomar suas atividades antes da recuperação completa.
Para a otorrinolaringologista e cirurgiã crânio-maxilo-facial, a visibilidade proporcionada por grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo, contribui para conscientizar a população sobre a importância do diagnóstico correto, do tratamento especializado e do respeito ao tempo de recuperação das lesões faciais.
Ela lembra, entretanto, que esses dispositivos não substituem o tratamento indicado para cada caso. Fraturas com desvio significativo dos fragmentos ósseos ou comprometimento funcional, como alterações na mordida (desoclusão dentária), geralmente exigem abordagem cirúrgica para restabelecer adequadamente a anatomia e a função da face.
Além das máscaras utilizadas durante a recuperação, já existem equipamentos capazes de reduzir significativamente a ocorrência e a gravidade dos traumas faciais. Capacetes do tipo BMX, que oferecem proteção para a mandíbula, podem ajudar a prevenir fraturas, especialmente em atividades como ciclismo e patinete, importantes causas desses traumas em crianças e adultos. Da mesma forma, protetores bucais confeccionados em placas finas, semelhantes aos alinhadores ortodônticos, representam uma alternativa confortável e eficaz para reduzir lesões dentárias durante a prática esportiva.
Segundo a Dra. Maria Victória, ampliar o uso desses dispositivos, especialmente entre crianças, pode contribuir para aumentar a segurança e reduzir a incidência de lesões na face.